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Recomendações de leitura durante a pandemia

Recomendações de leitura durante a pandemia

 

 

O coronavírus impôs novos desafios aos Direitos Humanos. Opressões pautadas em classe, raça, gênero e identidade sexual são exponencializadas, em um contexto global de queda da produção, retraimento econômico, e sobrecarga do sistema de saúde. A escassez de recursos necessários à manutenção de uma vida digna leva a um cenário de “guerra de todos contra todos”, capaz de reforçar os piores aspectos da globalização hegemônica e do capitalismo especulativo: hiperindividualismo, esfacelamento da esfera pública, radicalização ideológica etc.

Inúmeros pensadores vêm se esforçando para, a partir de grelhas analíticas as mais diversas, ajudar-nos a refletir sobre os novos tempos. Mas, produzidas “no calor dos acontecimentos” – sem o distanciamento que a “paciência do conceito” (para valermo-nos da terminologia hegeliana) exige –, essas análises de conjuntura apresentam qualidade muito variável: há reflexões de grande arrojo e sofisticação (Zizek) e de argumentação rasa e inarticulada (Agamben, Habermas), disputando, dia a dia, espaço na mídia. Algumas obras, evidentemente, se destacam, pela capacidade de, a um só tempo, oferecer uma resposta contundente aos desafios urgentes que se descortinam e conservar uma leitura segura e serena da nossa realidade – é o caso do brilhante livro Encantamento: sobre política e vida, escrito por Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. Todavia, face à plêiade de publicações inspiradas pela pandemia, torna-se cada vez mais difícil “separar o joio do trigo”.

Nesse sentido, talvez seja importante “dar um passo atrás”, e recorrer a textos que, embora escritos muitos anos atrás, podem nos auxiliar a refletir sobre as consequências sociais, políticas e jurídicas do covid-19. Para além da dimensão médica e sanitária, toda doença comporta um significado geopolítico, que precisa ser posto em evidência. É esse o propósito das quatro leituras sugeridas abaixo. Como uma epidemia pode desnudar a violência física e simbólica que nossa sociedade, cotidianamente, comete contra grupos vulneráveis (mulheres, negros, homossexuais etc.)? O que a disseminação de vírus e bactérias, ao longo da história, tem a nos dizer a propósito das profundas desigualdades no que tange às condições materiais e aos graus de desenvolvimento de diferentes nações? Essas e outras questões – que colocam-se, em virtude do coronavírus, na ordem do dia – são os foco dos livros que indicamos, aqui.

 

1) O normal e o patológico: contribuições para a discussão sobre o estudo da psicopatologia (1966), de Georges Canguilhem

Filósofo e médico francês, Georges Canguilhem se propõe, nessa obra já clássica da epistemologia, a discutir as nossas concepções de ‘saúde’ e ‘doença’, ‘normalidade’ e ‘anormalidade’. Para Canguilhem, um organismo é considerado ‘normal’ quando interage de forma “funcional” com o ambiente à sua volta; e é considerado ‘doente’ quando se vê impossibilitado de se desenvolver nesse meio. Assim, toda concepção de ‘corpo saudável’ é relativa, relacional. Espécimes considerados “anormais”, em um certo habitat, poderiam ser os únicos com potencial para sobreviver, noutro. Canguilhem adota, assim, uma posição radicalmente antieugenista: não é possível (diferentemente do que do que o nazismo propunha, outrora, e do certos governos de extrema direita advogam, hoje) fixar um padrão do que seria o ‘corpo perfeito, ideal, modelar, paradigmático’. Mesmo um indivíduo com (sic) “histórico de atleta” pode ser considerado ‘não-saudável’, a depender da conjuntura em que se vê imerso. O discurso capacitista (que cria uma cisão absoluta entre pessoas com e sem deficiência, aptas e inaptas para a vida social), é ilusório, pois ignora que nossas “capacidades” estão estreitamente ligadas às demandas que me são colocadas.

 

2) Doença como metáfora (1978), de Susan Sontag – complementado por AIDS como metáfora, da mesma autora

Susan Sontag foi, por muitos anos, a estrela da Nova Esquerda estadunidense, personificação do estilo radical chic. Depois de lutar, reiteradas vezes, contra o câncer, Sontag decidiu escrever um ensaio sobre como determinadas doenças são socialmente estigmatizadas, em nossa cultura. Doenças adquirem, em diferentes épocas, dimensões simbólicas distintas. No século XIX, por exemplo, a tuberculose foi frequentemente encarada como um mal que acometia artistas e livre-pensadores (o que implicou que, em determinados círculos, fosse cultuada, interpretada como a marca de um espírito romântico e subversivo). Os sintomas da sífilis, da mesma forma, podiam ser vistos, por rapazes do Oitocentos, como um indicativo de virilidade. A AIDS, em contrapartida, foi, na década de 1980, recebida como uma punição de Deus contra homossexuais masculinos (“câncer rosa”). O câncer, em si mesmo, seria, da perspectiva de Sontag, vista em nossa cultura como uma maldição vinda dos céus – perspectiva que seria reforçada pela linguagem popular, em frases como “a masturbação é o mais profundo e perigoso câncer da nossa civilização”. Tais posturas contribuiriam para segregar pacientes oncológicos, e dificultar a sua inserção na vida social. Sontag nos ajuda a pensar na forma como nosso imaginário (que se espelha nas fábulas populares, nas artes plásticas, na literatura, no cinema etc.) condiciona os filtros através dos quais interpretamos as doenças que nos acometem.

 

3) Armas, germes e aço – os destinos das sociedades humanas (1988), de Jared Diamond

Um dos principais nomes do “determinismo geográfico”, Diamond, biólogo evolucionista, procura, em Armas, germes e aço, refletir sobre o fenômeno da colonização. Se todos os seres humanos são iguais, o que permitiu que determinados grupos, ao longo da história, invadissem e sobrepujassem outros? Diamond vai mostrar como os “recursos naturais” (em especial animais domesticáveis de grande porte e grãos cultiváveis em larga escala) disponíveis em determinados continentes (mas, não, em outros) acabaram gerando duas opções básicas de organização civilizacional: a dos povos caçadores-coletores e a dos povos sedentários (culturas agrárias). Com grandes reservas de proteína e de carboidrato, os povos sedentários tendem a se lançar em brutais guerras de conquista. E, nessas batalhas, os germes terão papel central. O cultivo, não esporádico, mas permanente de animais de abate, em grandes quantidades, irá, por um lado, oferecer uma enorme “reserva de energia” – que a caça eventual ou a coleta de raízes e frutos silvestres não seria capaz de suprir –, e, por outro, colocar a população sob permanente ameaça de novos vírus e bactérias. Referida ameaça, observe-se, é agravada pelo fato de que os povos sedentários frequentemente aglutinam uma grande quantidade populacional em pequenos espaços habitacionais. Diamond, assim, desenvolve uma correlação estreita entre: a) presença de animais de grande porte “domesticáveis”, no meio ambiente; b) agropecuária; c) surgimento de civilizações sedentárias; d) surgimento e disseminação de epidemias; e) colonialismo.

 

4) A história da humanidade contada pelos vírus: bactérias, parasitas e outros microorganismos (2009), de Stefan Cunha Ujvari

Infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Ujvari mostra de que maneira epidemias (como a Peste Negra) definiram, na história da humanidade, padrões de comportamento e de higiene, crenças e valores. O ser humano, como qualquer outro animal, está sujeito às intempéries da natureza – embora hoje, hiperprotegidos por trás das muralhas de concreto das grandes cidades, tendamos a nos esquecer disso. Não é possível, assim, descrever a marcha do homem sobre a terra sem levar em consideração o impacto causado por micro-organismos. Vírus e bactérias, em inúmeras ocasiões, mudaram, do dia para a noite, o cotidiano de sociedades inteiras. Ujvari evidencia a indissociabilidade entre história humana e história natural.

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